Frege novamente?

Propõe-se, aqui, alguns elementos de um trabalho em andamento; sua formulação é provisória. Detivemo-nos em suas premissas. Por que esse título “Frege novamente” ? Partindo de uma comunicação no X Encontro de estudos das origens da filosofia contemporânea, realizado em São Paulo no outono de 2019, traça-se o intrincamento histórico dos suportes e linguagens próprios às construções contemporâneas do inteligível, as perguntas às quais respondem tais eles como se revelaram na virada do século XIX para o XX. Trata-se de uma história lenta, o argumento se encaminha no sentido totalmente inverso daquele que se chamou crise das ciências. Se há crise – ainda que esse termo, vindo da medicina hipocrática, tenha perdido muito de sua pregnância – ela estaria também e sobretudo alhures. É a própria noção de modernidade em filosofia que é posta em causa, sempre marcada por uma oposição polimorfa entre Antigos e Modernos, que se perpetua sob inúmeros retornos e retóricas. O argumento teve seu instante de precisão. Seria preciso ainda se perguntar quais Antigos, como eles foram modernos em seu tempo e como “a era clássica”, que neles se amparou, perpetuou-se nas figuras de um criticismo canônico – sobre o qual se fixou o debate. Hoje, é necessário identificar os caminhos sinuosos de uma modernidade em que a filosofia fará sua aposta e sua sorte. Nós o tentamos noutro momento, a propósito de Merleau-Ponty, de Lévi-Strauss ou de Foucault. Eles próprios trabalhavam a partir de uma herança criticista que igualmente abandonaram, sem amargor nem desconstrução, pois o essencial era, já naquele momento, identificar novas linguagens que dispunham o inteligível em outras dimensões e, nas décadas pós-guerra, habilitar dimensões gráficas. Nisso, nosso incômodo toma suas premissas: há na multiplicação das vias emprestadas por um racionalismo distribuído sobre linguagens complementares, que não recobrem inteiramente o espectro e nossas perguntas, desbravando caminhos argumentados ou pretensamente argumentados, inventivos ou recessivos, confundidos numa noção opaca, aproximativa, de informação, disposta num continuum de numérico e de comunicação. O episódio de que Frege foi o epicentro é também um assunto de grafismo, isto é, de sintaxe e de diversificação. Desenha-se aí aquilo que, hoje, separa as línguas ditas naturais das linguagens estritamente gráficas que têm suas próprias dimensões. Tendo coexistido até certo ponto continuadamente, umas e outras adquiriram um estatuto inteiramente diverso e motivaram um conflito de performances. Estavam implicados o alexandrismo do pensamento filosófico e o fim do galileísmo filosófico. Uma rocha fora lançada ao mar, suas vagas vêm até nós.

source https://periodicos.unb.br/index.php/fmc/article/view/35852

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